Saberes Ancestrais Transformam a Universidade: Povos Indígenas, Quilombolas e Quebradeiras de Coco Fortalecem a Educação e a Resistência no Maranhão
Prof Correia
Editor Chefe
Entre os dias 16 a 19 de julho de 2026, a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) tornou-se um grande território de encontro entre diferentes culturas, histórias e conhecimentos. Acadêmicos indígenas, comunidades quilombolas e quebradeiras de coco babaçu reuniram-se em mais uma edição do encontro promovido pelo PROETNOS, consolidando um dos mais importantes espaços de diálogo sobre educação intercultural, diversidade, territorialidade e fortalecimento dos povos tradicionais do Maranhão.
O evento reúne estudantes, professores, pesquisadores, lideranças comunitárias e representantes de diversos territórios tradicionais para compartilhar pesquisas, experiências pedagógicas, práticas culturais e estratégias de fortalecimento das identidades coletivas. Durante quatro dias, a universidade deixa de ser apenas um espaço acadêmico convencional para tornar-se um verdadeiro território de troca de saberes entre a ciência produzida nas universidades e os conhecimentos ancestrais preservados pelos povos originários e comunidades tradicionais.
As atividades incluem mesas de debates, conferências, rodas de conversa, apresentações científicas, relatos de experiências, avaliações de pesquisas de campo, oficinas, plenárias políticas e manifestações culturais que reafirmam a importância da diversidade étnica na construção do conhecimento brasileiro.
Além da valorização das produções acadêmicas, o encontro fortalece as discussões sobre permanência estudantil, políticas públicas, educação diferenciada, preservação ambiental, direitos territoriais, valorização das línguas maternas e respeito às diferentes formas de produzir conhecimento.
A presença de representantes de diversos povos indígenas, comunidades quilombolas e quebradeiras de coco babaçu evidencia a riqueza cultural do Maranhão e demonstra que a universidade pública pode ser um espaço de inclusão, diálogo e construção coletiva.
O Povo Ka’apor protagoniza uma das mais importantes experiências de educação intercultural
Entre os grandes destaques do encontro está a participação de 15 acadêmicos Ka’apor, estudantes da Licenciatura Intercultural da Educação Básica Indígena da Universidade Estadual do Maranhão, representantes da Terra Indígena Alto Turiaçu, localizada na região do Alto Turi.
Durante o evento, os acadêmicos apresentam ao público uma das mais significativas produções intelectuais já desenvolvidas pelo povo Ka’apor:
“Saberes e Fazeres do/no Território Alto Turiaçu do Povo Ka’apor na Aldeia – História da Aldeia e da Educação em Waxinguirenda” e Turizinho
A obra é resultado de meses de pesquisa, registros históricos, escuta das lideranças, valorização da memória coletiva e diálogo entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais.
Mais do que um livro, a publicação representa um marco histórico para o povo Ka’apor.
Ela registra a trajetória da aldeia, preserva conhecimentos transmitidos pelos mais velhos, fortalece a língua, valoriza os processos educativos próprios e reafirma que a escola indígena deve nascer do território, da cultura e da identidade de seu povo.
O lançamento da obra simboliza uma conquista construída pelos próprios professores indígenas, pesquisadores e estudantes Ka’apor, que assumem o protagonismo na produção do conhecimento sobre sua própria história.
Educação construída a partir da floresta
Durante as apresentações, os acadêmicos Ka’apor demonstram que a educação diferenciada praticada em suas aldeias ultrapassa os limites da sala de aula.
Cada atividade pedagógica nasce da relação entre território, cultura, espiritualidade e natureza.
Entre os principais trabalhos apresentados estão:
🌿 Educação Linguística
Os professores apresentam materiais didáticos produzidos pelos próprios Ka’apor para fortalecer a alfabetização bilíngue, preservando a língua materna e garantindo que as novas gerações aprendam tanto os conhecimentos tradicionais quanto os conteúdos escolares sem perder sua identidade cultural.
🌳 Gestão Territorial e Proteção Ambiental
Outro eixo de destaque mostra como a escola indígena atua diretamente na defesa da Terra Indígena Alto Turiaçu.
As pesquisas revelam que professores e estudantes desenvolvem ações educativas voltadas para a preservação da floresta, conscientização ambiental, monitoramento do território e enfrentamento das invasões.
A educação é apresentada como ferramenta permanente de proteção da natureza e do modo de vida Ka’apor.
🍃 Saberes da Floresta
Nas salas de apresentação, os acadêmicos compartilham práticas pedagógicas que integram o conhecimento botânico tradicional, plantas medicinais, manejo da floresta, alimentação tradicional e medicina indígena ao currículo escolar.
São conhecimentos transmitidos pelos anciãos que hoje dialogam com a pesquisa científica, fortalecendo uma educação intercultural baseada na realidade do território.
🏹 Projetos de Vida e Autonomia
Outro tema amplamente debatido foi a construção dos projetos de vida do povo Ka’apor.
Os estudantes demonstram como a educação diferenciada fortalece a autonomia das comunidades, forma novos professores indígenas, prepara lideranças e contribui para que o próprio povo conduza os rumos da educação em suas aldeias.
A força da produção acadêmica indígena
Um dos momentos mais marcantes do encontro é a apresentação de pesquisas realizadas dentro das próprias aldeias.
Os acadêmicos compartilham experiências construídas em suas comunidades, demonstrando que a universidade também aprende com os povos indígenas.
As bancas de avaliação recebem trabalhos sobre:
história das aldeias;
educação intercultural;
preservação da língua Ka’apor;
memória dos anciãos;
práticas agrícolas tradicionais;
medicina indígena;
territorialidade;
espiritualidade;
formação de professores indígenas.
Cada apresentação reafirma que o conhecimento tradicional possui rigor, metodologia e profundo valor científico e cultural.
Encontro de povos e fortalecimento das identidades
Ao lado dos Ka’apor, participam representantes de diversos povos indígenas, comunidades quilombolas e quebradeiras de coco babaçu.
Durante os quatro dias de programação, todos compartilham experiências relacionadas à educação, preservação ambiental, cultura, direitos coletivos, economia tradicional, organização comunitária e valorização das identidades.
As rodas de conversa tornam-se espaços de escuta, respeito e construção coletiva, fortalecendo alianças entre os diferentes povos tradicionais do Maranhão.
Muito além da universidade
A participação dos Ka’apor demonstra que a universidade pode ser um espaço onde os conhecimentos acadêmicos dialogam com os saberes ancestrais, sem que um se sobreponha ao outro.
A produção do livro, as pesquisas apresentadas e as experiências compartilhadas revelam uma nova geração de professores indígenas comprometidos com a valorização de sua história, de sua língua, de seu território e de sua cultura.
Cada trabalho apresentado reafirma que educar também significa proteger a floresta, fortalecer a identidade, preservar a memória e garantir que os conhecimentos dos ancestrais continuem vivos nas futuras gerações.
Uma mensagem de esperança

Em meio às atividades acadêmicas, a comitiva Ka’apor compartilha um sentimento de orgulho e compromisso com seu povo.
“Comemoramos este momento com esperança por dias melhores. Estamos na Universidade Estadual do Maranhão apresentando nossa obra em educação, construída após meses de pesquisa e dedicação. Compartilhamos os conhecimentos adquiridos entre a ciência ocidental e os saberes do nosso povo. Este livro fortalece nossa formação como educadores Ka’apor e representa um importante legado para as futuras gerações. Somos 15 acadêmicos da Licenciatura Intercultural da Educação Básica Indígena da UEMA, cumprindo nossa missão de aprender, ensinar e fortalecer a educação intercultural. Seguimos representando com orgulho o povo Ka’apor, levando a voz de nosso território e reafirmando que nossos saberes tradicionais também constroem ciência, história e futuro.”
Texto-base: Samue Myraran Ka’apor – Coordenador Ka’apor e liderança.
Ao final do encontro, permanece a certeza de que a educação intercultural é um caminho de transformação social. A união entre povos indígenas, comunidades quilombolas e quebradeiras de coco babaçu demonstra que o conhecimento floresce quando diferentes culturas se encontram, dialogam e constroem, juntas, um futuro pautado no respeito, na diversidade e na valorização dos saberes ancestrais.