O STF que julgava os outros: quando a Justiça também precisa ser julgada
Prof Correia
Editor Chefe
Durante décadas, o Supremo Tribunal Federal foi apresentado à sociedade brasileira como uma das últimas instâncias de proteção da Constituição. É diante dele que chegam questões de enorme importância para a República. A própria Constituição estabelece que compete ao Supremo, principalmente, a guarda da Constituição.
Por isso, existe uma pergunta que merece ser feita, não como condenação antecipada de ninguém, mas como reflexão sobre a própria democracia:
Quem julga aqueles que têm o poder de julgar?
A pergunta tornou-se ainda mais importante diante dos acontecimentos recentes envolvendo a própria Corte. Em setembro de 2026, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, revogou a designação do ministro Alexandre de Moraes para conduzir determinado inquérito, preservando os atos praticados durante o período anterior.
Também em setembro, o Plenário do STF começou a analisar uma questão de ordem relacionada à Petição 16662, ligada a um relatório da Polícia Federal que menciona supostos diálogos relacionados ao ministro Alexandre de Moraes. O julgamento foi suspenso por pedido de vista e, conforme o próprio STF, o mérito da petição ainda não havia sido analisado.
Esses acontecimentos não significam, por si só, que ministros tenham cometido crimes. Acusações precisam ser investigadas, provas precisam ser analisadas e qualquer responsabilidade deve ser definida pelo devido processo legal.
Mas existe algo que não pode ser ignorado: as instituições também precisam prestar contas à sociedade.
Quando o juiz também passa a ser questionado
A grandeza de uma instituição não está em ser intocável.
Está justamente na capacidade de permitir que seus atos sejam examinados, criticados e, quando necessário, corrigidos.
O STF foi criado para interpretar a Constituição e proteger o Estado Democrático de Direito. Seus ministros, portanto, não estão acima da Constituição. A própria Constituição estabelece requisitos para o cargo e atribui ao Supremo competência para processar e julgar, nas hipóteses previstas, inclusive seus próprios ministros em infrações penais comuns.
Isso produz uma verdade simples:
Nenhum homem deveria estar acima da lei.
Nem o cidadão comum.
Nem o empresário.
Nem o político.
Nem o presidente.
Nem o deputado.
Nem o senador.
E também não o magistrado.
A autoridade existe para servir à Justiça, e não para substituir a Justiça.
A Bíblia já ensinava que o poder não torna ninguém intocável
Muito antes da existência das modernas instituições jurídicas, a Bíblia já apresentava histórias de reis, governantes, sacerdotes e homens poderosos que foram confrontados quando ultrapassaram os limites da justiça.
O rei Davi, por exemplo, ocupava o mais alto poder de Israel. Mesmo assim, quando praticou uma grave injustiça envolvendo Urias e Bate-Seba, foi confrontado pelo profeta Natã.
Natã não perguntou:
“Quem é você para falar com o rei?”
Ele disse:
“Tu és este homem.”
(2 Samuel 12:7)
A mensagem era clara: o poder não elimina a responsabilidade moral.
Davi podia ser rei, mas continuava sujeito à justiça de Deus.
Nabucodonosor: o poder humano não é absoluto
Outro exemplo é Nabucodonosor, rei da Babilônia.
Ele possuía riqueza, exército, território e autoridade. Entretanto, o livro de Daniel apresenta sua queda e posterior reconhecimento de que o poder humano possui limites.
A lição bíblica não é simplesmente sobre um rei antigo.
É sobre a condição humana:
Quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade.
Uma instituição poderosa precisa ter ainda mais compromisso com a humildade, a transparência e a prestação de contas.
Pilatos e a pergunta sobre a verdade
No julgamento de Jesus, Pôncio Pilatos representava o poder político de Roma.
Pilatos perguntou:
“Que é a verdade?”
(João 18:38)
A pergunta permanece atual.
A verdade não muda porque alguém ocupa um cargo importante.
A verdade não muda porque uma autoridade possui milhares ou milhões de pessoas que a apoiam.
A verdade não muda porque uma instituição possui uma toga, um palácio ou um tribunal.
A lei dos homens e a Lei de Deus
A sociedade precisa das leis humanas. Sem Constituição, códigos, tribunais e procedimentos, o Estado poderia transformar-se em arbítrio.
Mas a tradição bíblica acrescenta outra dimensão: acima do poder humano existe uma justiça que não depende de votos, cargos ou decisões políticas.
A Bíblia afirma:
“O Senhor é o nosso juiz; o Senhor é o nosso legislador; o Senhor é o nosso Rei.”
(Isaías 33:22)
Essa passagem apresenta uma ideia poderosa: o verdadeiro juiz não pode transformar sua própria vontade em medida absoluta de justiça.
Na perspectiva bíblica, a justiça exige verdade, imparcialidade e responsabilidade.
O poder passa. A verdade permanece.
Governos mudam.
Presidentes passam.
Senadores passam.
Deputados passam.
Ministros passam.
Tribunais permanecem como instituições, mas também podem mudar sua composição, suas decisões e sua interpretação das leis.
Por isso, nenhum ser humano deveria imaginar-se como proprietário da verdade.
A história está cheia de homens que acreditaram que seu poder seria permanente.
Não foi.
Reis caíram.
Impérios desapareceram.
Governantes foram esquecidos.
Mas a busca pela justiça continua.
A verdadeira força da Justiça
Criticar o STF não significa necessariamente ser contra o STF.
Questionar uma decisão judicial não significa necessariamente atacar a democracia.
Pedir transparência não significa destruir as instituições.
Ao contrário: instituições fortes devem suportar a fiscalização pública.
Uma democracia madura não precisa de autoridades intocáveis.
Precisa de autoridades responsáveis.
O Supremo deve continuar exercendo sua função constitucional. Mas aqueles que ocupam seus cargos também devem compreender que a autoridade pública exige limites, transparência e responsabilidade.
Porque existe uma diferença fundamental entre poder julgar e ser dono da Justiça.
Nenhum ser humano é dono da Justiça.
E, para quem acredita na Bíblia, existe uma lei que está acima de reis, presidentes, ministros, tribunais e governos.
A Lei de Deus.
Como está escrito:
“A justiça, somente a justiça seguirás.”
(Deuteronômio 16:20)
Talvez essa seja uma das maiores lições para qualquer sociedade:
Quando o juiz julga os outros, precisa lembrar que também será lembrado por seus próprios atos; quando o poderoso exerce o poder, precisa lembrar que o poder é passageiro; e quando o homem acredita estar acima de toda lei, precisa lembrar que nenhuma autoridade humana é maior que a verdade.
No fim, a pergunta não deveria ser apenas:
“Quem tem poder para julgar?”
Mas também:
“Quem fiscaliza o poder de quem julga?”
E, para aqueles que colocam sua fé em Deus, existe uma pergunta ainda maior:
“Quem poderá esconder-se diante daquele que conhece a verdade de todas as coisas?”
Autor :Professor Correia