“Está em jogo nosso bem viver, nossa floresta e nosso território”, desabafa a indígena Rosilene Alves Tembé
Prof Correia
Editor Chefe
Em áudio enviado a professores e estudantes Ka’apor, a gestora da Unidade Integrada de Educação Escolar Indígena Turizinho – Jumu Éha Renda Katu Té, professora Rosilene Alves Tembé, fez um desabafo e pediu um grande esforço dos parentes para o segundo turno das eleições, marcado para o dia 25 de outubro.
Em seu relato, Rosilene afirma que o resultado do primeiro turno ainda não definiu o próximo presidente e manifesta preocupação com as possíveis consequências de uma mudança de governo para os povos indígenas, especialmente em relação à demarcação de terras, à proteção da floresta, à saúde e à educação.
Segundo ela, embora alguns indígenas tenham apoiado o outro lado, a maioria dos povos indígenas estaria apoiando o presidente Lula.
“Para nós que vivemos da floresta, que temos o direito garantido na Constituição, não vai ser bom se esse presidente ganhar. Independentemente de quem ganhar, a gente sempre vai lutar pelo nosso território e pelo nosso direito, mas não vai ser fácil”, afirmou.
Rosilene também citou um vídeo que circula nas redes sociais no qual Flávio Bolsonaro aparece defendendo posições contrárias a novas demarcações de terras indígenas e favoráveis ao chamado Marco Temporal. Para a gestora, esse posicionamento representa uma preocupação para os povos indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais.
“Na fala dele, no projeto dele, ele está deixando bem claro que não vai mais demarcar terra indígena, que, para ele, não vai existir mais terra indígena. Isso é preocupante para nós, porque nós moramos na floresta. Dela somos guardiões”, declarou.
A proteção da floresta e o futuro do clima
Em outro momento do áudio, Rosilene chama atenção para a importância das terras indígenas na preservação ambiental e alerta para os efeitos das mudanças climáticas.
“Nós estamos cuidando do coração do país. Hoje, só em terra indígena é que ainda tem floresta, que ainda está chovendo. Tem pessoas que não entendem, mas vão entender quando o clima estiver matando a gente de calor, de quentura. Isso vai trazer várias doenças, porque não vai ter mais floresta.”
Para ela, a defesa do território indígena não diz respeito apenas aos povos que vivem nas aldeias, mas também ao futuro de toda a sociedade, uma vez que as florestas desempenham papel fundamental na manutenção do equilíbrio climático e ambiental.
Saúde: preocupação com uma possível municipalização
Na segunda parte do áudio, Rosilene manifesta ainda preocupação com a área da saúde, especialmente diante da possibilidade de retorno de propostas de municipalização do atendimento à saúde indígena.
“Fico preocupada na área da saúde. Se municipalizar, nós não vamos ter direito. Quem mora na cidade, quando sai do hospital, vai para casa. Nós moramos distante, 300, 400 quilômetros da cidade. Se não tiver mais carro, se não tiver mais uma empresa que garanta isso para nós, vai complicar.”
A gestora destaca que a realidade das comunidades indígenas é diferente da realidade das populações urbanas. As longas distâncias entre as aldeias e os centros urbanos tornam indispensável uma estrutura específica de transporte e atendimento para garantir o acesso efetivo à saúde.
Educação e acesso às universidades
Rosilene também demonstra preocupação com o futuro da educação indígena e com a continuidade do acesso dos jovens indígenas às universidades federais.
Ela lembra que faz parte da primeira turma de indígenas da aldeia a ingressar no ensino superior e destaca a importância das políticas que possibilitaram essa conquista.
“Nós somos a primeira turma que está fazendo faculdade. Os outros parentes já estão bem avançados. Se eles acabarem com a faculdade federal, o que vai ser de nós? Nós temos que pensar também na área da educação.”
Para Rosilene, a presença de indígenas nas universidades representa uma conquista histórica e uma oportunidade para que novos profissionais indígenas possam retornar às suas comunidades e contribuir para o fortalecimento da educação, da saúde, da cultura e da defesa dos territórios.
“Nosso bem viver, nossa floresta e nosso território”
Ao final do áudio, Rosilene destaca que, em sua avaliação, o atual governo abriu espaços para a participação de indígenas em instituições e órgãos públicos, citando a presença indígena em ministérios e na Câmara Federal.
“Foi a única pessoa que deu oportunidade para nós indígenas. Ocupamos bem nosso espaço através dos ministérios e da Câmara Federal. Deus sabe de tudo. Peço a Deus que as coisas, no dia 25, virem. Porque, principalmente para nós, vai estar em jogo nosso bem viver, nossa floresta, nosso território.”
O depoimento de Rosilene Tembé expressa a preocupação de uma liderança educacional indígena diante do cenário eleitoral e reforça a importância, para os povos originários, de discutir o futuro das políticas públicas relacionadas ao território, à proteção ambiental, à saúde e à educação.
Veja Video abaixo
Aldeia: Turizinho – Terra Indígena Alto Turiaçu
Município: Zé Doca – MA
Escola: Unidade Integrada de Educação Escolar Indígena Turizinho – Jumu Éha Renda Katu Té
Rosilene Alves Tembé: Gestora escolar